toró de parpite











{15/09/2008}   E por falar em ‘ais’

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras! 
É canto funeral! … Que tétricas figuras! … 
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 

Era um sonho dantesco… o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros… estalar de açoite…  
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar…

 IV

Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente… 
E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais … 
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos… o chicote estala. 
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,  
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
          Faz doudas espirais… 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!… 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
          E ri-se Satanás!…  

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura… se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co’a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?… 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!

V

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa… 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus… 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

(…)

causo: um dia a professora de teatro me deu isso, e me pediu para dizê-lo numa peça de encerramento do semestre do grupo de teatro da escola. eu não fazia parte do grupo, mas ela queria me convencer disso… fiquei TÃO impressionada com as palavras escritas ali (no papel não tinha o nome do autor e eu nunca tinha lido o ‘navio negreiro’, eu tinha 14 anos), que fui. mas pedi que a minha melhor amiga fosse comigo. autorizado, ela foi. eu falava uma, ela falava outra estrofe. cinco peças depois, eu sai do grupo prá fazer vestibular prá direito. e a professora foi lembrada de que eu concordara em participar do grupo de teatro porque ‘queria ser advogada’. sei esse pedaço do poema, até hoje de cor, e continuo achando a parte mais bonita. sinto saudades daquela figura quixotesca, Lúcia Tormin. advogando achei um sem fim de ais… mas, voilá: de alegria também se doi.

 

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