toró de parpite











{16/03/2009}   Gone with the wind

Você já foi embora? Eu fui.

 

Prá onde? Ah, prá outro lugar, bêibe, porque isso é o que menos importa quando se trata de ir. Quem vai deixa para trás. E, por um lado, além de tudo o que virá, importa o que ficou. O que está lá no mesmo lugar, é o lugar que nunca vai ser o mesmo desde que você não está mais.

 

Reza a teoria que sair donde estás-contido muda definitivamente a percepção de tudo. Mas a realidade é mesmo insuperável.  

 

Basta saber que vais embora e a primeira distorção acontece imediatamente no olhar sobre as coisas mais simples. De repente, você enxerga a banca de jornais da esquina, que havia se tornado invisível há vinte dos trinta anos que você a vê diariamente. E tudo aquilo que fez da sua vida uma insuportável mesmice, parece subitamente açucarado.

 

Sentimentalismo baraaaato, mas gostoso como maria-mole de padaria.

 

Segunda alucinação: enfiar sua vida na mala. Bom, quem habita um quarto na casa alheia (dos pais, no caso) não deveria ter muita coisa para levar além das roupas e sapatos… Não é mudança para encher um caminhão baú da felicidade. Então, “dá prá fazer a mudança aos poucos, em viagens, umas duas ou três.” Jura???? Ai que inveja das Carmelitas Descalças!!! Elas não devem ter que escolher os livros que vão primeiro, e sofrer por saber que num dia de insônia aquele livro que não veio ainda salvaria a sua vida. E o vestido que só dá para usar com aquele sapato que não veio porque só dá para usar com UM vestido, o próprio??? Devidamente anotado para nunca mais fazer esse tipo de compra irracional. Ah, jura????

 

Despedida: agente aumentativo superlativo. “AMOOO. VOOOU MORRRRRREEER DE SAUDAAAADES!! NÃO SEI O QUE VAI SER DA VIDA SEM. NADA MAIS VAI TER GRAÇA.” É sincero, claro, mas, aumentativo, superlativo. 

 

No dia marcado, vais tomar o primeiro avião com destino à felicidade, à felicidade (uu, uh), não está lá, é o caminho. E, iey!! By your self, on your own. Dá prá perder a conta de quantos: “Eu nao sou daqui” foram pronunciados. Síndrome de Alice (é, a do País das Maravilhas), e dá-lhe chá com o chapeleiro maluco, briga com a Rainha de Copas, coelhos atrasados… Há quem diga que ela tinha comido um cogumelo. Qualquer semelhança terá sido mera coincidência.

 

Lugar prá morar, travesseiro da NASA, travessa de vidro, de porcelana, a padaria boa, a ruim, o vizinho da frente, a de um lado, os do outro, sotaque que ora incomoda, ora incorpora. O ar condicionado que é vital. Explicar o que é gominha, o uai que grita, o trem nem se fala. Os caminhos que passam a ser os seus, e os que não são, mas prefere. A maresia que é outra, a comida  que é (gratamente) familiar. Prazeres banais com gosto de privilégio. E muito mais ainda do porvir, em haver.

 

Até agora, de mais importante, a certeza de nunca antes ter sentido saudade de verdade.           



{02/03/2009}   ode ao ocaso

– vou.

– vai.



et cetera